Dzi Croquettes

Surgimento: O grupo surge em 1972, no Rio de Janeiro.
Desfecho: Encerram suas atividades em 1976, na Bahia.

O movimento da Contracultura explodiu nas décadas de 60 e 70 do Século XX. Neste cenário sociocultural que criticava o sistema capitalista, com o seu consumo desenfreado, e os valores tradicionais sociais, morais e estéticos da época, surge um grupo que irá revolucionar não somente a cena artística, como promover uma quebra de paradigmas comportamentais vigentes neste período. O grupo Dzi Croquettes formado por treze homens bailarinos, atores e cantores, em plena ditadura militar, criou espetáculos irreverentes e ousados, que misturavam os ritmos brasileiros com o Jazz, o Teatro de Revista com os musicais da Broadway, cenas de plateia que evocavam o improviso como ferramenta política e questionadora, o carnaval, e o cabaré. O Dzi Croquettes, em sua carreira no Brasil e no exterior, antropofagicamente, absorveu as estéticas existentes, inovou e dialogou com a vanguarda da época. Influenciou diversos artistas e movimentos culturais relevantes como a Bossa Nova e o Teatro Besteirol.

Pesquisa realizada por: Celso Andre (Colaborador do projeto – Cabaré Incoerente)

Galeria de fotos:

 

Links de vídeos:

Dzi Croquettes, o documentário. Direção: Tatiana Issa e Rafael Alvarez – https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=OGrIMj-4UWc

Dzi Croquettes, Show na TV Alemã (Arquivo) – https://www.youtube.com/watch?v=4VSghVnwE0k

 

Mais sobre sua biografia:

Em 1972, quando o grupo Dzi Croquettes começa a surgir, o Brasil vivia em uma ditadura militar extremamente rígida. No dia 13 de dezembro de 1968, o governo de Costa e Silva emitiu o decreto AI-5 (o Brasil era governado por atos institucionais) que deu plenos poderes aos militares. A censura se estabeleceu e proibiu diversas manifestações artísticas e movimentos políticos. O período era conhecido como “anos de chumbo”. Muitos foram perseguidos, torturados e mortos por suas ideias libertárias e contrarias a ordem da época.

Neste período do país, Wagner Ribeiro, recém-chegado ao Rio de Janeiro, vindo do interior para estudar medicina, abandona o curso para fazer teatro, e se revela um grande artista plástico, ator, compositor e dramaturgo. Com um ideal fixo de criar um espetáculo que questionasse esse momento difícil do país, no dia 8 de agosto de 1972, na galeria Alaska, reduto underground em Copacabana no Rio de Janeiro, convidou os artistas Bayard Tonelli, Benedicto Lacerda e Reginaldo Rodrigues para conversarem e criarem um grupo teatral. Bayard mencionou o grupo novaiorquino The Crocketts que dialogava com as ideias que ali surgiam. Na mesa havia uns croquetes de carne, e Wagner refletiu que eles eram todos feitos de carne como croquetes. Ele acrescentou o artigo americano “The”, sonoramente abrasileirado, e assim surgiu o nome Dzi Croquettes.

Wagner Ribeiro tornar-se-ia o mentor filosófico do grupo. Ele foi responsável pelos textos e canções que fizeram história na cena do Dzi Croquettes. Um ator com qualidades cômicas singulares e forte presença cênica. Ele se apresentava travestido e encarnava a persona Silly Darling, que, com sua voz fina, pregava o amor como forma de resistência à brutalidade política do momento.

O Dzi Croquettes originalmente foi formado por treze homens. Artistas revolucionários que se auto intitularam a família Dzi Croquettes com seus nomes e personas: Bayard Tonelli (a bacia Atlântica), Benedito Lacerda (a Old City London), Ciro Barcelos (a Silinha), Carlos Machado (a Lotinha), Claudio Gaya (a Claudete), Claudio Tovar (a Clô), Eloi Simões (a Eloína), Paulo Bacellar ou Paulette (a Letinha), Reginaldo de Poli (a Rainha), Rogerio de Poli (a Pata), Roberto de Rodrigues (A Tia Rose), Wagner Ribeiro (Silly, a mãe) e Lennie Dale (o Pai).

O grupo, ou melhor, a família Dzi, foi sendo formada aos poucos. Ciro Barcellos foi chamado por Bayard para fazer um teste para o primeiro espetáculo do grupo onde a linguagem do cabaré, misturada com o carnaval e seus homens vestidos de mulheres, guiariam o processo criativo da Cia. O espetáculo intitulado Gente Computada Igual a Você, estrearia no Cabaret Casa Nova na lapa em 1972, e assim, ele se juntou a trupe.

Lennie Dale já era uma estrela, e seu nome circulava popularmente pelo show business carioca. Lennie era norte americano, já havia dançado na Broadway, atuado como ator, cantor e bailarino, conceituou esteticamente estrelas como Elis Regina e Bety Faria, e inovou cenicamente espetáculos que fizeram sucesso nos árduos tempos da ditadura. Chegou ao Brasil pelas mãos de Carlos Machado, diretor de teatro de Revista, se apaixonou pelo país e aqui ficou. Lennie morava com o Ciro Barcellos que o seduziu a assistir os ensaios dos Dzi. Lennie enlouqueceu com o que viu. O encontro da técnica e o rigor artístico de Lennie com a filosofia transgressora e inovadora de Wagner Ribeiro foi a base do grupo que mudaria a historia da cena artística e comportamental no Brasil.

Luis Carlos Miele, artista, produtor e “embaixador cultural” carioca, em depoimento ao documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Rafael Alvarez, lançado em 2009, conta que convidou Lennie para atuar em um show que criariam para a boate Monsieur Pujol em sociedade com Ronaldo Boscoli, no bairro carioca Ipanema. Lennie completamente envolvido com a filosofia Dzi, sugeriu levar o show do grupo para a boate de Miele e Boscoli. No dia marcado para Miele conhecer o grupo, Lennie, blefando, diz que o grupo havia desistido. Ao entrarem na Boate, Miele foi surpreendido pelos Dzi Croquettes pendurados nos lustres e espalhados pela boate, entoando uma canção que dizia: Dzi, Dzi, Dzi Croquettes… As internacionais. Miele ficou encantado e fechou o contrato na hora. O espetáculo explodiu na mídia e foi um sucesso estrondoso.

Lennie, extremamente rigoroso, impunha oito horas de trabalho por dia ao grupo, onde difundia suas refinadas técnicas de dança e música. Ele já havia promovido criativas mudanças na iluminação e o no uso do espaço cênico nos espetáculos que havia dirigido ou atuado. Detentor de um swing arrebatador e uma singular forma de dançar, Lennie trouxe inovações sonoras na música brasileira, e contribuiu para o enriquecimento e desenvolvimento da Bossa Nova. Lennie, segundo seus contemporâneos, era um gênio.

Toda essa vivência e rigor de Lennie, junto aos textos, canções e parodias bem humorados e desconcertantes de Wagner Ribeiro, e a liberdade do elenco que criava, com disciplina, seus próprios números e personas, fizeram com que o Dzi Croquettes virasse um sucesso e promovesse uma transformação comportamental que se opunha a caretice da época. A liberdade e a experimentação são os guias de suas produções criativas e transformações sociais. Eles criticamente carnavalizavam com ironia todos os valores tradicionais vigentes da época em todas as esferas.

Eram treze homens praticamente nus, cobertos de purpurina, cílios postiços e maquiagem pesada, com todos os pelos masculinos do corpo presentes. Dançavam com uma sensualidade feminina, embalada pela força masculina e, sublimemente, mexiam com a sexualidade do público. Travestidos, eles quebravam a quarta parede com números de plateia memoráveis, que traziam críticas políticas e exaltavam a liberdade em todos os sentidos. A inteligência cênica às críticas vigentes passou inicialmente despercebida pela censura da época. Em 1973, no auge do sucesso, depois de uma temporada significativa em São Paulo, de volta ao Rio, eles tornam-se um fenômeno cultural e são censurados.

Eloi Simões, nesta temporada em São Paulo, entrou como camareiro de Lennie, e com seu talento e carisma conquistou o grupo e se juntou à família. Eloi além de cuidar dos bastidores, aos poucos, foi criando números inesquecíveis enriquecendo a cena Dzi. As filas no Teatro 13 de maio, em São Paulo, eram intermináveis. Todos queriam ver e ser Dzi Croquettes.

O espetáculo resignificou a vida de uma legião de jovens que se vestiam como eles, e vivam a filosofia Dzi Croquettes de ser. Havia um vocabulário debochado próprio à maneira Dzi. Eram uma família como Wagner Ribeiro queria, autor da célebre frase; “Só o amor constrói”. Viviam todos na mesma casa e experimentavam o amor livre, a liberdade sexual, e vivencias alucinógenas. Cada um tinha sua função dentro da comunidade para que houvesse alguma ordem. Alguns excessos geravam brigas e discussões que eram amaciadas por Nega Vilma, uma belíssima amiga que virou governanta da casa e tinha uma liderança moral na família. Ela que organizava a tietagem que era grande. Um grupo de mulheres tietes, que seguiam os Dzi, criou, incentivadas por Wagner Ribeiro, uma versão feminina do grupo, as Dzi Croquettas. Dzi Croquettes era um jeito de ser. Era a permissão pra você ser quem você era. Lennie dizia em cena “Não somos homens e nem somos mulheres… Somos gente!”

Para driblar a censura, eles conseguiram um alvará provisório, porém isto não era nenhuma garantia de estabilidade. Ficaram 30 dias parados e quando finalmente conseguiram liberar o espetáculo, Lennie é atropelado e não poderia dançar. Terminaram a temporada do Rio no Teatro da Praia e foram para São Paulo. Em quarenta dias, Lennie estava recuperado e novamente em cena. Com o sucesso da temporada no Teatro Maria Della Costa, eles compraram as passagens para a Europa e fugiram da repressão.

Claudio Tovar, em seu depoimento para o documentário do Dzi, de Tatiana Issa e Rafael Alvarez, conta que o grupo embarcou em julho de 1974 em um navio, com a cara e a coragem. Sem produtor, sem agenda, sem absolutamente nenhuma estrutura empresariais, e acompanhados por uma única mulher, a Nega Vilma.

Foram para Portugal, com duas toneladas de roupa e drogas, onde não foram bem recebidos pelo público. O grupo sem dinheiro, almejando Paris, envia Claudio Gaya à cidade da luz com todo dinheiro que restava ao grupo.

Gaya era um ator rico em recursos cômicos, com um time único de comédia. Sua embocadura e seu humor ácido recuperavam o espírito fumisme dos cabarés. Seus números eram verdadeiras aulas de comédia.

Os Dzi conseguem contato com o fotografo Patrice Calmettes, que bancou as passagens de trem para o grupo ir à Paris encontrar Gaya e seguir carreira. O espetáculo foi inicialmente boicotado pela imprensa parisiense. Porém, uma sessão, à meia noite, especialmente feita para Liza Minnelli e seus convidados, colocou o grupo sob todos os holofotes. Eles tornam-se uma grande novidade, e tinham na plateia nomes como: Valentino, Jeane Moreau, Maurice Bejart, e tantos outros renomes do “Jet Set” internacional. Um alemão os leva para a Itália onde levam um calote financeiro dos empresários mafiosos italianos, e ficam sem nenhuma perspectiva à frente e pobres novamente.

Josephine Baker estava entres os convidados da célebre noite oferecida pela madrinha do grupo Liza Minnelli, e havia dito ao diretor do Teatro Bobino em Paris, onde ela estrearia um novo espetáculo, que se ela morresse gostaria que os Dzi ocupassem o lugar dela. Uma semana depois que ela estreou o espetáculo, no dia 12 de abril de 1975, Josephine morre em cena, e os Dzi Croquettes assumem o Teatro Bobino, e retornam à Paris. O sucesso estrondoso faz com que o grupo seja reconhecido popularmente e assistido por varias celebridades. Eles ficam famosos e ricos.

No auge do sucesso, receberam um convite para uma turnê em Londres e Nova Yorque. Porém, um fazendeiro rico baiano os seduziu para ficarem em sua fazenda na Bahia descansando e criando um novo trabalho. E esta foi a opção da família Dzi. Eles abandonam a proposta da turnê e retornam ao Brasil. Ficam hospedados nesta fazenda com uma grande quantidade de drogas. Era época dos excessos e desmedidas, e nesse momento, por causa de um cenário que desagradou o Lennie, feito pelo Tovar, há um grande desentendimento na família Dzi, e Lennie abandona o grupo. Outros três integrantes resolvem sair também. Há um rompimento definitivo neste ano de 1976.

Os integrantes antigos que permaneceram se juntam a outros novos, entre eles, o ator e diretor Jorge Fernando. Eles são dirigidos por Fernando Pinto, e montam o espetáculo Romance que estreia em São Paulo em 1976, com texto de Tovar e o novato Wagner Melo. O espetáculo não foi bem recebido nem em São Paulo, assim como posteriormente em Paris. Ele tinha uma rigidez contraria a filosofia Dzi, e havia perdido sua liberdade cênica, e consequentemente a sua magia. O espetáculo manteve o grupo ativo que decidiu montar um novo trabalho chamado “Les Speakerines” (As Locutoras) Eles recuperam o estilo e a energia Dzi Croquettes. Libertam-se de narrativas aprisionadoras, passam a compor seus números e personas novamente, e conquistam novamente o público. Porém, apesar do recomeço do grupo com novas estéticas e integrantes, eles não conseguem recuperar a essência da “Familia Dzi”, que era fundamental na estrutura artística e filosófica do grupo, e eles se dissolvem de vez.

Na década de 80, uma doença desconhecida, chamada inicialmente de câncer gay, surge de forma devastadora. A AIDS, como diz poeticamente Tatiana Issa, em seu documentário Dzi Croquetes, transformou em “purpurina”, Gaya, Paulete, Eloy e Lennie. Wagner, Reginaldo, e Carlos Machado foram assassinados. Reginaldo Rodrigues morreu de aneurisma. Rogerio de Poly, com sérios problemas de saúde, falece em 2014. Ciro Barcelos seguiu sua carreira artística na dança e no teatro. Bayard Tonelli é ator, poeta e coreógrafo. Claudio Tovar é ator, diretor, cenógrafo e figurinista. Benedicto Lacerda é guia turístico internacional.

O espírito Dzi Croquettes influenciou toda uma geração de atores, dramaturgos, músicos e artistas visuais. Foi precursor do teatro Besteirol, influenciou a Bossa Nova e foi o embrião do grupo vocal “As Frenéticas” que surgiu a partir da versão feminina do grupo, as Dzi Croquettas. Eles revolucionaram a cena teatral e da dança no Brasil e no exterior. O grupo trouxe o discurso da sexualidade e da androgenia pra cena, e foi precursor do movimento gay e da luta por uma sexualidade livre. Eles tinham o slogan que os definiam com “a força do macho e a graça da fêmea”. Eles eram libertários e loucamente criativos e originais.

*Caso queira saber mais sobre Ciro Barcelos, clique aqui.

Referências bibliográficas:

MARTUSCELLI, Maria Lídia (Lidoka). Likoda, uma Vida Frenética. Rio de Janeiro : Obliq Press, 2012.

Documentário:
DZI CROQUETTES. Dirigido por Tatiana Issa e Rafael Alvarez. Brasil: 2009.

DZI Croquettes. Enciclopédia Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399377/dzi-croquettes>. Acesso em: 13 de jun. de 2019.