Ciro Barcelos

Nascimento: 27 de setembro de 1953, em Porto Alegre.

Ciro Barcelos – ator, dançarino, coreógrafo e diretor – nasceu em Porto Alegre e já entrava no meio artístico ainda criança, como músico. Na adolescência, integrou o elenco do musical “Hair”, em São Paulo. Faz teste para o espetáculo “Dzi Família Croquette” e passa a integrar o grupo. Ciro Barcelos traz Lennie Dale para os Dzi Croquettes, que se transforma num enorme fenômeno. Homens andrógenos, brilhantes e coloridos, com corpos esculturais, dançam e interpretam números belos, inteligentes e sarcásticos. Criam uma nova cultura a se espalhar pelo Brasil, promovem uma revolução artística e comportamental. Mas em plena Ditadura Militar, Ciro e os Dzi vão para o exílio. Com apoios importantes como Liza Minelli, os Croquettes constroem um sucesso gritante pela Europa, sendo até convidados para Nova Iorque, mas o grupo volta ao Brasil. Ciro segue em Paris investindo forte na dança; volta para o Brasil oito anos depois e consolida uma carreira de sucesso como ator, dançarino, coreógrafo e diretor. Em 2012, quarenta anos depois da estreia dos Croquettes, Ciro reestreia o espétaculo, retomando a essência dos Dzi com cara nova.

Pesquisa realizada por: Gabriel Rochlin (Discente de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO)

Galeria de fotos:

 

Links de vídeos:

Jornal da Gazeta em 2016 (Entrevista) – https://www.youtube.com/watch?v=0fQMos0ryI8

“História da Ditadura – Novas Perspectivas”, por Paulo Cesar Gomes (Entrevista) – https://www.youtube.com/watch?v=Dqtka9xC8T8
– https://www.youtube.com/watch?v=mvvZknLuL-A

TV Brasil (Entrevista) – http://tvbrasil.ebc.com.br/exilio-e-cancoes/episodio/coreografo-ciro-barcelos-e-sua-experiencia-nos-dzi-croquettes

Ciro Barcelos em seu espetáculo “Átma”, em São Paulo, 2019 – https://www.youtube.com/watch?v=k0ClDwkfTwU

Ciro Barcelos em “Francisco”, em 2017, para a TV Canção Nova – https://www.youtube.com/watch?v=nZJNR6M8mBU

Ciro Barcelos em “Santo Antônio do Brasil – Um Musical Sacrodélico”, em 2008 – https://www.youtube.com/watch?v=F1F6X84T9Lo

Ciro Barcelos e Banda Xabá no Cabaret Star, em São Paulo, 2017 – https://www.youtube.com/watch?v=BBeewTwWysk

Ciro Barcelos em “Dzi Croquettes em Bandalha”, em 2013, no Teatro Serrador – https://www.youtube.com/watch?v=2QGZ9ZCyvok

Dzi Croquettes ao vivo – https://www.youtube.com/watch?v=ScfJsMKE8gM

Dzi Croquettes em espetáculo para TV Alemã – https://www.youtube.com/watch?v=4VSghVnwE0k

 

Mais sobre sua biografia:

Pré Dzi Croquettes
Ciro Barcelos começa sua carreira artística aos seis anos, ainda em sua cidade natal, Porto Alegre. Músico, ele tocava uma pequena sanfona e já entrava no mercado artístico – seus pais o levaram ao programa de calouro infantil Clube do Guri. Com oito anos de ideade mudou com sua família para o Rio de Janeiro, onde seguiu estudando música. E até a adolescência foi evoluindo na sanfona, mas sempre teve uma conexão com o teatro desde pequeno; diz que se fantasiava em casa e criava situações teatrais. Com dezesseis anos foge para Curitiba para fazer o teste para o musical Hair (à frente para a época, o que amedrontava pelas recentes prisões do jovem elenco). Ciro passou a integrar o elenco do musical (que estreia em São Paulo), que o fez se emancipar e efetivamente seguir este caminho – que o levou a conhecer Lennie Dale (futuro pai dos Dzi Croquettes). Ciro conta  que já o conhecia pela TV e era apaixonado por ele, e que conversando após seu espetáculo foi amor à primeira vista. Com isso, Lennie o convida para ter aulas de dança com ele.

DZI CROQUETTES

O início
Bayard Tonelli, que também fazia aulas com Lennie (e por isso conhecia Ciro), convidou o jovem gaúcho para fazer um teste para “Dzi Família Croquette”, o que seria somente uma peça a ser encenada no Cabaret Casa Nova, na Lapa, Rio de Janeiro. As recomendações eram para irem vestidos e maquiados de mulher. Passado os testes, cinco artistas (incluindo Ciro), que terminavam as faculdades de teatro ou belas artes, se reuniam na casa da Wagner Ribeiro. Insatisfeitos com a realidade político-social e artística da época, estes artistas inquietos queriam fazer algo diferente, uma linguagem nova. Queriam questionar aquele sistema assustador, mas ao mesmo tempo poder trabalhar dignamente, uma vez diante de tantos artistas espancados, torturados e presos com um teatro politicamente engajado. Foi num bar, conversando e comendo croquetes, que a ideia se concretizou. Inspirados pelo “Bloco das Piranhas”, com homens cisgêneros peludos e barbudos vestidos de mulher, que por ali passou, chegaram à idealização dos Dzi Croquettes. Dzi pelo artigo inglês “the”, que é agênero, e Croquettes pelos bolinhos de carne que estavam comendo, fazendo alusão também ao grupo americano “The Cockettes” – que misturavam a natureza de paz e amor do movimento Hippie da década de 60, com a cultura underground pós-guerra. Não se sabia o que seria essa nova peça, só que seria uma nova linguagem, com homens vestidos de mulher mas com barba, bigode e pêlos, e com influências de cabúqui, escolas orientais, shakespeareanas, hare krishna, entre outros. Os Croquettes estream na casa noturna “Mounsier Pujoul”, com números para preencher o tempo da boate, enquanto o público esperava pela estrela principal – nesta noite, Lennie Dale. Ciro Barcelos era muito próximo de Lennie, já moravam juntos há quase um ano, e então trouxe o coreógrafo para a casa em Santa Teresa (futura “Casa de Marte”) para conhecer o grupo. Lennie foi se envolvendo e se apropriando da ideia até que transformou o que era pra ser uma peça de teatro, num verdadeiro fenômeno, que foi os Dzi Croquettes. Não só um fenômeno externo, uma família também. Ciro era o mais novo do grupo. Como a mãe, Wagner Ribeiro, chamava-se Silly Dale (a tonta), “aí como eu era a menorzinha eu então era a Silinha, a tontinha”.  Ciro Barcelos passa a ser Silinha Meleca, a caçula da família Croquettes.

A nata
Primordialmente, a androginia, tão peculiar dos anos setenta; a latência para resgatar a essência de ter e ser os dois polos sexuais, e poder ser mais, romper esta binariedade (Ciro fala de uma rede nesta onda de androginia da época, citando Caetano, Gal, Maria Bethânia e Ney).  Era a liberdade em cena. A liberdade para explorar as possibilidades que a sexualidade pode oferecer. Quebrar barreiras de gênero com argolas, plumas e penas. Com uma estética de selvageria, animalidade e ferocidade. Um ambiente colorido e onírico em contraste com os anos de chumbo. Lennie Dale traz uma exibição corporal muito forte, uma sensualidade latente, uma preocupação com uma estética física, dos padrões de corpos esculturais. O grupo está na origem de uma corrente vinculada à travestilidade, ao deboche, à exploração do virtuosismo dos membros do elenco, à caricatura, à farsa e à comédia de costumes. “Pernas cabeludas, cílios postiços, salto alto, foi na verdade uma estratégia pra gente driblar o regime militar, contestá-lo, com muito humor, mudança e muita purpurina”, diz Ciro, “Essa era a revolução, a liberdade. A gente pregava a liberdade”. Os Dzi vêm criticando o sistema homofóbico com humor, com texto interessante e trabalhado. “Estávamos na contramão do teatro político de esquerda da época. Qual era a melhor maneira de a gente contestar essa ditadura? Vamos fazer humor. Vamos contestar esse sistema homofóbico e militar. E para isso, nada melhor do que homens cabeludos vestidos de mulher”, explica Ciro. “Nosso show virou um point de conspiração.”.

Além da liberdade pela sexualidade, os Dzi também carregavam uma liberdade cênica. Tanto do exercício autoral, quanto da liberdade do próprio ator. De ter a técnica e todas as ferramentas que precisa; e também a liberdade para se expressar, para improvisar e criar ativamente em cena. O improviso era uma ruptura forte ao teatro da época, muito comportamental e rigidamente fiel ao texto. Ele traz um espetáculo em constante transformação, um texto novo todo dia. Os Dzi Croquettes foram uma grande revolução em diversos aspectos, inclusive dentro do universo teatral, inspirando movimentos como o besteirol, grupos como Grupo de Teatro Vivencial, do Recife, e grandes artistas como Ney Matogrosso. “A gente deu um pontapé na porta: desbundem! E fodam-se os militares!”, declara Ciro. Ele descreve os Dzi como uma bomba que caiu, um cogumelo que foi se expandindo pelo Brasil inteiro. Pessoas saíam de diversos lugares do país (até do mundo) para assistir os Dzi. Então, começam a aparecer pelo Brasil transformações na cena teatral trazendo o espírito dos Dzi Croquettes. E as pessoas começam a se vestir como os Dzi. A (contra)cultura da purpurina com barba e roupas extravagantes, cores e brilhos, começa a se espalhar em pleno regime. Como Ciro descreve, esta bomba explodiu para todos os lados, mas levou um ano para se tocarem da ameaça política que os Dzi representavam. Eles são os precursores, a linha de frente dessa revolução política, sexual, estética, artística e comportamental. “A gente não recuou de maneira nenhuma e nem podia recuar, por todos os movimentos de resistência fortíssimos acontecendo”, declara Ciro quarenta e cinco anos depois, “Como eu tô vivo ainda? Tendo estado naquela época de chumbo fazendo Dzi Croquettes de bunda de fora em cena…”. Menosprezava-se a ameaça do grupo por ser comédia, por ver comicamente homens vestidos de mulher e pela figura admirável e querida de Lennie. Porém, militares percebem estas transformações culturais e sexuais de comportamento e começam a caçar a fonte desta movimentação, até que chegam ao Teatro da Praia no Rio de Janeiro, aos Dzi Croquettes. A filha de um general assiste e denuncia a peça.

“O transformista ou a travesti não comprometiam o cidadão. As pessoas viam um cara vestido de mulher, agindo como mulher, dentro de uma forma. Mas quando o cara machão hétero ia com a esposa assistir ao Dzi e se sentia atraído por aqueles corpos masculinos dançando, aí comprometia, ameaça. A gente despertava a libido desses caras. A censura disse que era o texto, o nu, as cores amarelas usadas. Mas a gente sabia que começou a haver uma transformação do público e atingiu profundamente essa sociedade. As pessoas voltavam questionando os valores, a garotada começou a sair usando batom, vestido meio homem e meio mulher.”

Até a censura e o exílio, os Dzi Croquettes tiveram anos brilhantes no Brasil. Wagner Ribeiro era o responsável pelos textos. Em 1972, ele escreveu “Gente Computada Igual a Você”, contando com treze integrantes já, apresentado no Cabaret Casanova e no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro. O espetáculo – que ironizava abertamente os valores políticos, comportamentais e sexuais da época – apresentava números cantados, dublados e dançados, ligados por monólogos carregados de ironia e duplo sentido que tratavam das experiências pessoais de vida dos integrantes. A montagem reciclava práticas do Teatro de Revista, Cabaret, musicais da Broadway, Carnaval, Jazz, Bossa Nova e o movimento Antropofágico. Números como “Tinindo Trincando”, com música dos Novos Baianos, e “Assim Falou Zaratustra”, em versão dance e technopop, constituíam momentos altos do espetáculo. Os figurinos ousados, a maquiagem pesada e o contraste dos corpos masculinos em trajes femininos davam um toque trash e grotesco para a apresentação. Mas foi na boate Monsieur Pujol, em Ipanema, que tiveram a estréia registrada por jornais e revistas. O público carioca ficou surpreso com o grupo que punha no palco figuras estranhas e engraçadas: odaliscas, pierrôs, freiras, grávidas, prostitutas, palhaços, vedetes, rumbeiras e malandros. Que dançavam de forma inovadora, cantavam e interpretavam sem que fossem necessariamente atores, cantores e bailarinos. Em São Paulo, passaram seis meses no Teatro Bexiga, com disputadas sessões à meia-noite às sextas e sábados, que terminavam em grandes festas ao som de James Brown, na arena do teatro. Voltam ao Rio, reestreando no Teatro da Praia, em Copacabana. Nos anos seguintes, mais dois espetáculos foram realizados pelo grupo – “Dzi Croquettes”, em 1973, e “Dzi Croquettes Internacionale”, em 1974. No início, os censores não pareciam se importar. O máximo que acontecia era pedirem para aumentar o tamanho das roupas que usavam. E assim, os Dzi foram conquistando uma enorme legião de fãs. A originalidade e o ineditismo eram os principais fatores de admiração. Para muitos, “Dzi Croquettes” deixou de ser um grupo e passou a ser uma filosofia de vida, marcada pela resistência e por um estilo tipicamente brasileiro. Foi lançado o slogan: “Com a força do macho e a graça da fêmea”. E foi aí então que o sistema entendeu que a semi-nudez ia além do cômico. A ideia “a vida é um cabaré”, promovida por Lennie Dale, afrontava todas as privações da época. Após a censura ver o espetáculo numa sessão fechada, foi decretada a proibição do espetáculo sem direito a recurso, acarretando na suspensão da temporada. Assim, os artistas foram obrigados a se retirar do Brasil para o exílio. Aceitaram o convite para apresentações em Portugal e França. Fizeram novas apresentações no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo, para arrecadar dinheiro e então zarpar para a turnê européia.

O exílio
O exílio começa em Portugal, retomando o contato com uma grande amiga, Liza Minnelli. A espalhafatosa atriz americana tinha assistido ao show dos Dzi no Rio de Janeiro e, imediatamente, se apaixonado por eles, se tornado ali a madrinha do grupo. O grupo embarca em julho de 1974 em Santos, no navio Cristophoro Colombo, passa por Buenos Aires, e onze dias depois chega à Lisboa. Chegando lá fugidos do regime ditatorial brasileiro, os Dzi recebem um choque. Portugal havia acabado de passar pela Revolução dos Cravos, que carregava um conservadorismo muito forte. Ainda que gostassem do grupo, não obtiveram muita repercussão. Então, o empresário e fotógrafo Patrice Calmettes articula uma turnê para a França, pagando as passagens e empenhando recursos e contatos para a produção. Liza Minelli os promoveu, o que desencadeou num grande sucesso, em temporadas marcantes no Le Palace e no Teatro Bobino. A plateia contou com personalidades da alta sociedade francesa: atores como Josephine Baker, Jean Claude Brialy, Omar Sharif e Catherine Deneuve; cantores como Mick Jagger e David Bowie; o estilista Valentino; as modelos Verushka e Marisa Berenson; além de outros artistas, milionários, condessas e embaixatrizes. Logo fez grande sucesso de público e de crítica.  Ciro Barcelos conta que foi um tiro no pé dos próprios militares, porque no exílio eles podiam se expressar como quisessem, fazendo um sucesso estrondoso com tanta gente importante; e tudo reverberava no Brasil.

“De repente, a gente se vê em Paris. E, quando abre a cortina, está todos esses grandes nomes sentados para assistir ao espetáculo. Éramos a grande atração da temporada, então foi tudo muito forte. Mas eu estava amparado. Éramos em treze e eu era o caçula, o mais mimado. Pude lidar de uma forma tranquila.”, conta Ciro. Não demorou para que estivessem nas festas de grandes artistas, muito sucesso, sexo e drogas: fumo, champanhe, cocaína e, mais tarde, heroína. Com isso, as crises começaram a surgir: atrasos, desentendimentos, esquecimento no meio do espetáculo. Mas os Croquettes ainda participam do “Le Chat et la Souris”, do renomado cineasta francês Claude Lelouch e também filmam com Charles Jacque Demi. Logo depois são chamados para Itália, em Turim, no Teatro Erba, e Milão, no teatro Odeon, onde ficam dez dias em cartaz, mas os empresários não os pagam pelas apresentações. Tiveram, então, que ficar hospedados em um hotel entre a Suíça e a Itália, sem previsão para uma nova temporada. Até que receberam uma ligação do teatro Bobino, de Paris, que fez uma grande montagem para um espetáculo de Josephine Baker, porém a bailarina teve um infarto fulminante, e antes de falecer pediu que, caso morresse, o grupo entrasse com cartaz em seu lugar. E assim se fez, voltaram à França e por quatro meses ocuparam o teatro. Mantiveram-se trabalhando no teatro até julho de 1975, mas por razões burocráticas de contratos, decidiram por abrir mão da sala. Voltaram a enfrentar os problemas de recomposição de cenário, encontrar um teatro que pudessem apresentar e retomar os ensaios. Em outubro do mesmo ano, a emissora de televisão NDR, de Hamburgo, alugou o Teatro Hébertot para eles, em Paris, por um período de 15 dias, onde seriam tema de um longa-metragem. Apresentaram-se pela última vez na cidade, sua única gravação integral. O sucesso era inegável, e surge então um convite para a Broadway, em Nova York. Ao mesmo tempo, um fazendeiro brasileiro convida o grupo para voltar ao Brasil e ir até a Bahia. As opiniões se dividiram, mas aqueles contra o retorno foram voto vencido. Era o começo do fim. O grupo passou bastante tempo na fazenda e, quando estavam prestes a estrear em Salvador, ocorreu a ruptura.

Pós Dzi Croquettes
Quando o grupo volta para o Brasil, Ciro Barcelos continua em Paris por mais oito anos, se dedicando mais à dança, fazendo escola de dança clássica. Lá se casa com uma alemã e fica trabalhando em companhias de dança, chegando a trabalhar com Pina Bauch e Morisse Bejah. Ciro volta ao Brasil por convite de Lennie, ajudado pela saudade de casa e da família. Dale o convida para um espétaculo sobre Madame Satã, onde Lennie a representaria fisicamente, e Elis Regina a alma. Mas o espetáculo nunca chega a se concretizar, então resolvem fazer outro Dzi.

“Tinha um número que a gente dançava juntos, eu [Ciro] e ele [Lennie]. E tinha uma coisa de despedida. Que eu sabia que ele tava indo. A gente ia chegando, chegando, chegando, e quando a gente chegava a gente batia a cabeça um na cabeça do outro assim e ele já começava a chorar. E ali naquele momento vinha tudo na minha mente, vinha lá eu com dezessete anos conhecendo ele, vinha minha história toda, tudo, tudo, aonde eu tinha chegado pelas mãos dele.  Isso me emocionava e me emociona assim até hoje bastante, bastante.”

Em 1980, realizam o espetáculo “TV Croquette: canal Dzi”, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, que origina grupos importantes como TV Pirata. “Os Dzi dez anos depois causando forte, sendo sucesso!”, exclama Ciro. Ele segue sua carreira de ator, dançarino, coreógrafo e diretor. Contando com espetáculos renomados como “São Francisco”, que ficou doze anos em cartaz. Posteriormente, Ciro monta sua companhia de dança, “Ballet Terceiro Mundo”, com uma proposta assumidamente política. Ele diz não entender direito o que acontecia com esse Brasil dos anos 80, com uma dureza, uma coisa velada, que na época na ditadura não tinha.  Em 1987, Ciro coreografa a dança de abertura do Fantástico, da Rede Globo, em sua comemoração de trinta anos. Depois do sucesso do documentário de 2009, dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez, sobre os Dzi Croquettes, que ressuscitou o legado do grupo, a filha de Ciro, de 21 anos na época, traz a ele uma nova perspectiva. Ciro se vê diante de uma nova geração se unindo pra discutir os Dzi, se unindo para conspirar a partir do documentário, vendo a força transtemporal de um movimento dos anos 70. A filha diz que ele tem que remontar os Croquettes. Ciro resolve então montar uma nova versão dos Dzi Croquettes, estreando em 2012, no Teatro Leblon, no Rio de Janeiro, o espetáculo “Dzi Croquettes em Bandália” para comemorar os quarenta anos do grupo; e segue com sucesso em cartaz até os dias de hoje; passando por teatros como Dulcina, no Rio, e João Caetano e Teatro Augusta, em São Paulo. Com momentos do antigo espetáculo, um novo elenco com jovens atores, uma nova roupagem, mantém a proposta original do uso e abuso do corpo, mas recontextualizando para questões atuais como: hipocrisia, falsa liberdade, machismo, homofobia, consumismo, conservadorismo e fundamentalismo. Mantém-se o tom do belo, sarcástico, político e constantemente repensando a realidade atual. Algumas músicas da primeira montagem na década de 1970 foram mantidas, como a gravação de Elis Regina “Dois prá lá, dois prá cá”, e o “Pato”, de Lennie Dale, cuja interpretação é realizada por Ciro Barcelos e os atuais componentes do grupo. Músicas do grupo “Mamonas assassinas”, um rap – alusão cênica à música “Vapor Barato”, de Jards Macalê e Wally Salomão, e alguns funks são anexadas, com uma coreografia andrógena, marcante e colorida. Ciro fica surpreso com a potência de uma ideia dos anos 70 nos anos 2010. Como o público chora, se emociona e volta varias vezes. Como está sendo discutido nas universidades, com uma necessidade de urgência. Ciro conta: “Todos os dias no final do espetáculo eu brinco com a platéia: poxa, parece mentira, 45 anos depois eu ainda tô aqui falando a mesma coisa”, Ciro conta, “Nesse momento tão conturbado que nos vivemos politicamente, talvez até mais do que aquele, há uma situação sinistra, e o Dzi chega no meio disso novamente dizendo praticamente o que ele dizia na época”.

Ciro Barcelos desde sempre em sua trajetória artística carregou ousadia, irreverência, inteligência estética e acidez política à cena. Trouxe o brilho andrógeno como resposta à opressão estrutural machista e homofóbica nos anos 70 e nos anos 2010. Participou de um dos grupos mais disruptores do teatro brasileiro, os Dzi Croquettes, em plena Ditadura Militar, fez sucesso no exílio, voltou e consolidou carreiras e hoje, com 66 anos, carrega com toda a garra o mesmo espetáculo, ressuscitando os Dzi Croquettes para novos tempos.

*Caso queiraa saber mais sobre os Dzi Croquettes, clique aqui.

Referências bibliográficas:

GLOBO Teatro. Dzi Croquettes marcou a cultura brasileira com irreverência. Rio de Janeiro, 17 set. 2013. Disponível em: <http://redeglobo.globo.com/globoteatro/bis/noticia/2013/09/com-irreverencia-dzi-croquettes-marcou-cultura-brasileira.htm>. Acesso em: 13 de jun. de 2019.

SCHÜTZE, Jéssica. DZI CROQUETTES: teatro de resistência no período da ditadura militar brasileira. Florianópolis, jun. 2015. Disponível em: <https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/158972/TCC%20DzI%20Croquettes%20Kika-1.pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 13 de jun. de 2019.

Redação. “Despertamos a libido dos machões”, diz Ciro Barcelos, do Dzi Croquettes. A Capa. 2015. Disponível em: <https://acapa.com.br/despertamos-a-libido-dos-machoes-diz-ciro-barcelos-do-dzi-croquettes/>. Acesso em: 13 de jun. de 2019.

CATTO, Felipe. Papo afinado com Ciro Barcelos. 19 de dez. de 2016. Disponível em: <https://filipecattoemfoco.com/2016/12/19/papo-afinado-ciro-barcelos/>. Acesso em: 13 de jun. de 2019.

RIBEIRO, Ribeiro. Dzi Croquettes, sob a atual liderança de Ciro Barcelos, e sua passagem por Goiânia. Jornal Opção. 12 de abr. de 2014. Disponível em: <https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/dzi-croquettes-sob-atual-lideranca-de-ciro-barcelos-e-sua-passagem-por-goiania-91046/>. Acesso em: 13 de jun. de 2019.