Companhia Negra de Revistas

Estreia: 31 de julho de 1926, Rio de Janeiro, Brasil
Última apresentação: 22 de novembro de 1927, São Paulo, Brasil

A Companhia Negra de Revistas assinalou o início do teatro negro no Brasil, através de uma variante temática do teatro ligeiro que, sem modificar as estruturas dos gêneros existentes nas revistas e burletas, procurou estilizá-los com números de danças e canções da cultura afro-brasileira e afro-americana.  Surgiu no Rio de Janeiro, com estreia em 31 de julho de 1926, e um time escandalosamente talentoso, eletrizando a crítica e o público durante seus 16 meses de existência. São 6 espetáculos de que se tem registro, apresentados em São Paulo, Minas Gerais e outros estados pelos quais a companhia excursionou. A um passo de estrear internacionalmente, o racismo dos brancos de inúmeros setores da sociedade – escancarado ao longo de toda a sua existência – agiu para acabar com a companhia.

“Organizada por Jaime Silva e De Chocolat, instalou-se no Rialto a primeira companhia constituída de negros, no Brasil.
Jandira Aymoré, Rosa Negra, Dalva Espíndola, Djanira Flora, Miss Mons, Soledade Moreira; e – De Chocolat, Guilherme Flores, Belisário Viana, Vicente Froés, Waldemar Palmièri, Domingos de Souza.
Vinte black-girls. Maestro-regente: Pixinguinha.
Julho,31 – Tudo Preto – De Chocolat. Música: Sebastião Cirino. Maestro-regente: Pixinguinha”

Foi João Cândido Ferreira, conhecido como De Chocolat, que, voltando de Paris, resolveu criar um teatro feito por negros, idealizando forma e adaptação. Associou-se ao cenógrafo branco português Jaime Silva e com ele organizou o que viria a ser a grande Companhia Negra de Revistas.

O Teatro de Revista, no final do século XIX e início do século XX, era uma das formas mais populares de entretenimento nas principais cidades brasileiras, sobretudo no Rio de Janeiro. A principal característica do gênero era a sátira política e a crítica social em quadros cômicos musicados. Eram as revistas que revelavam e ajudavam a construir nossa identidade cultural teatral, multifacetada e formada a partir de matrizes étnicas diversas, para a qual a população negra contribuía imensamente: inicialmente nas composições musicais, no fosso das orquestras e nos bastidores, e só quase quatro décadas após a abolição da escravatura (1888), subindo aos palcos para atuar e cantar – entrada cruelmente marcada por manifestações de desprezo, racismo declarado, na maioria das vezes em tom de “piada” como muito acontece até hoje. 

Os espetáculos do repertório:
“Carvão Nacional (1926) – Teatro Apolo
Pés pelas Mãos (1926) – Teatro Apolo
Preto no Branco (1926) – Teatro Rialto
Tudo Preto (1926) – Teatro Apolo
Café Torrado (1927) – Teatro República”
E ainda “A Revista das Revistas” – teria sido o último espetáculo feito a partir da junção de outros espetáculos da Cia, mas da qual nenhum registro foi encontrado.

Poderíamos pensar que a existência da Companhia Negra de Revistas foi curta. Porém, naquele momento, as iniciativas teatrais raramente duravam mais que isso, dissolvendo-se as trupes com freqüência. A famosa cia francesa Ba-Ta-Clan teve vida ainda mais breve. Portanto, poderia ser considerado um “processo natural” o fim da Companhia Negra de Revistas, não fosse um episódio bastante significativo, de natureza ideológica racista, que consistiu no “golpe de misericórdia” sobre o grupo teatral negro. 

Segue o fio do post feito a partir de uma colagem de reportagens e notas de jornal, trechos de dissertações, artigos, comentários de blogs e citações diversas. Dividida em 4 partes:
1- Como Surgiu a Companhia Negra de Revistas (o contexto)
2- A atuação da Cia Negra de Revistas
3- A repercussão e o racismo escancarado da imprensa
4- O (In)evitável Fim da Companhia Negra de Revistas.

 

Pesquisa realizada por: Juliana Thiré (discente do Departamento de Direção Teatral da Escola de Teatro da UNIRIO – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

 

Galeria de fotos:

 

Links de vídeos:

Mais sobre a história da Companhia Negra de Revistas:

1 – COMO SURGIU A CIA NEGRA DE REVISTAS – O contexto

“Quando as revistas de ano de Artur Azevedo começaram a fazer sucesso a partir de 1875, os negros do Brasil eram ainda escravizados. A “Lei do Ventre Livre”, de 1871, significou apenas um passo tímido para o fim da escravidão. A luta abolicionista tinha ainda um longo caminho a percorrer. No entanto, muitos negros ou descendentes diretos de negros já se destacavam ou logo se destacariam na vida social, na política, na cultura e nas artes.
Antes do fim do regime escravagista, Chiquinha Gonzaga e Antonio da Silva Callado já eram compositores respeitados, Machado de Assis já publicara alguns de seus mais conhecidos contos e romances e José do Patrocínio era um dos líderes da luta contra a escravidão. Todos negros ou filhos de negros.” 

Depois da Proclamação da República, amparados pela maior difusão dos espetáculos populares, muitos artistas negros buscaram espaço de reconhecimento, participando do mercado das partituras, dos primeiros filmetes e fonogramas, como Baiano, Cadete, Geraldo Magalhães e tantos outros – época em que o célebre Pixinguinha se profissionalizou (no ano de 1912).
Entretanto, havia – e ainda há – uma enorme resistência dos brancos colonizadores aos negros afro-diaspóricos e à sua cultura.

No teatro, o racismo da época, ao que parece, consistia em mostrar o negro no palco, uma vez que não havia impedimento de que os músicos negros tocassem nas orquestras dos teatros, ocultos no fosso, ou à parte, sem destaque nem foco de luzes. Os espetáculos dependiam em grande parte deles, mas os negros não subiam aos palcos porque era “feio” mostrá-los ao público.

O teatro popular, sobretudo a Revista, revelava e ajudava a construir nossa identidade cultural, multifacetada e formada a partir de matrizes étnicas diversas, para a qual a população negra contribuía imensamente. Mas, sua entrada em cena –  quase quatro décadas após a abolição da escravatura (1888) – foi marcada por manifestações de desprezo, racismo declarado e deboches grosseiros. A cultura escravagista tinha, e ainda tem, raízes bem profundas.

A partir da década de 1920, verificou-se uma renovação no Teatro de Revistas com a introdução de coristas pretas, muitas vezes chamadas de black-girls, anunciadas como “exótica novidade”, e os músicos pretos das orquestras do teatro de revista passaram a ser chamados de “professores”, como se fazia com os músicos brancos. Tal perspectiva era um reflexo brasileiro de um movimento internacional de luta pela valorização da cultura negra, que já havia conquistado espaço desde a segunda metade do século XIX, acelerando-se particularmente depois da Primeira Grande Guerra, com o irrompimento do jazz e de diversos gêneros de danças que ganharam o mundo. A procura por talentos afro-americanos na Europa permitiu que muitos artistas vindos dos Estados Unidos, de Cuba, da Martinica e de outras regiões encontrassem oportunidade para seus espetáculos.
Vale salientar a existência em Paris de grande popularidade em relação a tudo que dissesse respeito à África. Assim, com retumbante sucesso, estreou no teatro do Champs-Élysées, em 1925, o espetáculo Revue nègre (Revista Negra)– “selvagem, primitivo, erótico mas, ao mesmo tempo, um evento moderno”, afinado com a exposição de Art Déco que se realizava na mesma época. O “barbarismo” da Revue nègre se revelou por outro aspecto: Josephine Baker, que havia hesitado em desnudar os seios, não se importou em exibir as nádegas. Os acontecimentos da Revue nègre não passaram despercebidos no Rio de Janeiro, mesmo porque muitos dos jornais e revistas dos anos 1920, e mesmo depois, noticiavam regularmente o que acontecia nos palcos em Paris, como um manifesto subsidiário da antiga vinculação cultural brasileira à francesa. Exemplar nesse sentido é a matéria de um vespertino em artigo que estampa uma foto de Josephine Baker.”

O teatro musical, especialmente o gênero “revista”, na década de 20, era uma das formas mais populares de entretenimento nas principais cidades brasileiras, sobretudo no Rio de Janeiro. A principal característica do Teatro de Revista era a sátira política e a crítica social em quadros cômicos e musicados. Porém, diante da concorrência estabelecida pelo cinema, surgia para a preservação do Teatro de Revistas toda uma reação modernizadora, da iluminação sofisticada aos cenários “futuristas”, ao mesmo tempo em que se substituía a ênfase no texto pelos aspectos espetaculosos, pelo bizarro, inédito, exótico. Essas características foram reforçadas pelas visitas de companhias estrangeiras, como a espanhola Velasco ou a francesa Ba-Ta-Clan. 

Foi nesse contexto, ainda no começo dos anos 20, que um artista preto baiano, João Cândido Ferreira, esteve em Paris, apresentando-se em vários espetáculos de variedades. Inicialmente, intitulou-se Jocanfer, mas não tardou, por sua cor, que lhe chamassem de “Monsieur De Chocolat”, logo depois abreviado pela retirada do Monsieur. Em seu retorno ao Brasil, De Chocolat resolveu criar uma versão do “teatro negro”, idealizando a forma e a adaptação. Associou-se, então, ao cenógrafo branco português Jaime Silva (o único branco da empreitada) para organizar o que viria a se chamar Companhia Negra de Revistas.

2- OS 16 MESES DE VIDA (1926-1927)

Consta na no site “enciclopédia do itaú cultural” que os espetáculos apresentados pela Cia Negra de Revistas foram:

“Carvão Nacional (1926) – Teatro Apolo
Pés pelas Mãos (1926) – Teatro Apolo
Preto no Branco (1926) – Teatro Rialto
Tudo Preto (1926) – Teatro Apolo
Café Torrado (1927) – Teatro República

A estreia da Companhia Negra de Revistas ocorreu no Rio de Janeiro em 31 de julho de 1926. Seu advento assinalou o início do teatro negro no Brasil, através de uma variante temática do teatro ligeiro que, sem modificar as estruturas dos gêneros existentes nas revistas e burletas, procurou estilizá-los com números de danças e canções inspiradas na cultura afro-brasileira ou afro-americana. 

“NEGRA DE REVISTA (1926)

Organizada por Jaime Silva e De Chocolat, instalou-se no Rialto a primeira companhia constituída de negros, no Brasil.
Jandira Aymoré, Rosa Negra, Dalva Espíndola, Djanira Flora, Miss Mons, Soledade Moreira; e – De Chocolat, Guilherme Flores, Belisário Viana, Vicente Froés, Waldemar Palmièri, Domingos de Souza.
Vinte black-girls. Maestro-regente: Pixinguinha.
Julho,31 – Tudo Preto – De Chocolat. Música: Sebastião Cirino. Maestro-regente: Pixinguinha

Duas vezes repleto com um público que queria divertir-se com o grotesco e com o ridículo. Enganou-se: assistiu a espetáculo normal deveras interessante, interpretação correta, ditos de espírito da comperage, números de canto e dança, bem executados e marcados, e até mesmo, revelação de pendores artísticos, que deixaram a melhor das impressões. A cortina Lá Vem Elas, alude à crise de empregadas, no Rio, se a moda pegar. Em cenário apropriado, a vedeta Dalva Espíndola, voz afinada e dicção clara, faz com chiste uma baiana; o samba, pelo conjunto, Cristo Nasceu na Bahia, enche a sala de entusiasmo, com Mingote, que muito agrada. Djanira Aymoré, também vedeta, canta com bonita voz, uma modinha e alcança sucesso ruidoso na cançoneta Ludovina. Le Roi S’amuse, cortina com De Chocolat e Dalva e Charleston, com a estrela, Rosa Negra, agradam muito. E assim os Grooms, repetidos três vezes; Pérolas Negras, chefiado pela estrela que, na Jaboticaba Afrancesada, cançoneta, provoca ovações. Outro número, repetido três vezes, As Banhistas, obedecendo a engenhosa marcação, com Rosa e Dalva. Fecha a revista apoteose à Mãe Preta. ‘A raça negra quer evidenciar suas capacidades artísticas: oxalá o consiga e se esforce ardentemente pelo seu adiantamento e ilustração’, comentei; atravessou agosto, a 23 – 50a.

Setembro, 1 – Tudo Preto, passando a intitular-se Preto e Branco,por haverem ingressado artistas brancos na companhia. Voltou depois a Tudo Preto.

Suspendeu os espetáculos a 19.”

40 Anos de Teatro – Mario Nunes – 3º Volume. pg 51.

Para ajudar a entender o jargão de teatro, o Dicionário do Teatro Brasileiro – Temas, Formas e Conceitos nos explica o que é “cortina”: Rápidos quadros cômicos interpretados, numa revista, à frente da cortina colocada atrás do pano de boca, que se levantava no início do espetáculo e só baixando no final. Esses números tinham como finalidade, além de divertir o público, possibilitar complexas mudanças de cenários, que estavam sendo feitas atrás da cortina.” (Eudinyr Fraga)

Numa nota d’A Noite diz que o figurino de sucesso de Tudo Preto teve até exposição, antes da estreia, no Assyro – que, pra quem não sabe, Assyrio era o nome do cabaré do subsolo do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde Pixinguinha, Noel Rosa e muitos outros artistas de cabaré do Rio se apresentaram.

A Noite, 08 de Julho de 1926. P 5. “O guarda roupa de Tudo Preto”

“O guarda-roupa de Tudo Preto

A Companhia Negra de Revistas, que estreará ainda este mez em um dos theatros da Avenida com a “revuette” “Tudo Preto”, escripta por De Chocolat e enscenada luxuosamente por Jayme Silva, vae expôr o guarda roupa de sua primeira peça, que é custosissimo, no salão do Assyrio. Os ensaios de “Tudo Preto” prosseguem animadissimos, esperando De Chocolat um ruidoso sucesso para a “troupe” que organisou de collaboração com Jayme Silva.”

“Pixinguinha firmava-se como maestro-regente e orquestrador. ‘Tudo Preto’ ficou em cartaz por dois meses, com expressiva presença de público, que animou De Chocolat a reinvestir na sua idéia, e no dia 3 de setembro de 1926, nova estréia movimentava o elenco da Companhia Negra de Revistas, no mesmo Teatro Rialto…

(…)O espetáculo chamava-se ‘Preto no Branco’, escrito por Waldemiro di Roma e com músicas de um maestro recém-chegado de São Paulo, jovem talentoso e que seria um dos herdeiros de Pixinguinha, na arte da orquestração. Aconteceu ali o primeiro encontro entre Lírio Panicalli – depois um dos mais importantes maestros da MPB, principalmente em sua fase de arranjador na Rádio Nacional – com seu mestre Pixinguinha.

A temporada teve final tumultuado por questões trabalhistas, e a Companhia Negra de Revistas só voltou a se reunir para excursionar pelo Brasil, já então com um novo jovem ator no elenco: Grande Otelo”.

“Negra de Revistas (1927)

Depois de demorada e proveitosa excursão pelos estados de Minas e São Paulo, onde foi muito aplaudida, a companhia que De Chocolat organizou e Jaime Silva emprezou, volta ao Rio e vai ocupar o República. O elenco foi melhorado: o número de grande atração é o de Grande Otelo, pequeno artista de seis anos de idade (afirma a reclame) que é um verdadeiro assombro: canta em diversos idiomas com uma verve e espontaneidade extrordinárias. 

Março, 5 – Café torrado – Rubem Gill e João d’Aqui – espécie de potpourri, esketches, cançonetas, charleston, em que obtém sucesso Rosa Negra, Osvaldo Viana, Áurea Espíndola, Mingote. ‘ O clou foi a apresentação do pequeno Otelo, um crioulinho vivo e inteligente, que canta e declama com expressão e desenvoltura, e que viu seus números trisados entre ruidosos aplausos’. Encenação modesta

Suspendeu os trabalhos dia 13.”

  • 40 Anos de Teatro – Mario Nunes – 3º Volume. pg 91-92.

O Grande Otelo e a Companhia Negra de Revistas 

“A Companhia Negra de Revistas durou um ano – de julho de 1926 a julho de 1927 –, porém, em setembro, já havia diferenças entre Jaime Silva e De Chocolat, o que conduziu à saída do segundo da Companhia. De Chocolat deixou a trupe e fundou A Ba-Ta-Clan Preta em meio a grandes dificuldades, que durou pouco mais de um mês, exibindo-se em São Paulo no fim de 1926, quando se dissolveu.

Pixinguinha foi regente contratado da Negra desde a sua fundação, mas nela permaneceu até as apresentações em São Paulo, por não querer participar da excursão pelo interior paulista. Depois de breve intervalo, passou a se exibir na Preta, ocasião em que o notável músico casou-se com a vedete Jandira Aimoré. Já Grande Othelo entrou para a Companhia Negra no momento em que esta chegou à capital de São Paulo e seguiu com ela para todos os lugares para onde excursionou, exceto o Rio Grande do Sul, a derradeira excursão. Othelo integrou o elenco da trupe por cerca de cinco meses e, enquanto ali esteve, constituiu-se em sua principal atração”. 

Depoimento de Grande Otelo ao Serviço Nacional de Teatro (SNT), em 19/02/1975.:

...”Fiz minha estréia no Cine Teatro Avenida, no festival dos empregados do teatro, que era realizado anualmente. Aí, o Sebastião Arruda…..me contratou para o Teatro Rinque de Campinas, onde fiz minha estéia profissional.

Dali fui convidado a fazer a apresentação da primeira companhia de revistas negra no Brasil, que era no teatro Rialto, onde hoje é o Serviço Nacional de Teatro…cujo diretor artístico era De Chocolat, um ator negro que estivera na Europa e só cantava em francês.

Fui fazer apresentações no Teatro Apolo em São Paulo, que ficava na Rua Dom José de Barros, isso em 1926. Com essa companhia viajei o interior de São Paulo e o norte, voltando ao Rio, onde minha tutora veio me buscar….”

Abaixo um depoimento que faz um panorama da Companhia nos anos 1927:

“Em território paulista, a trajetória da Companhia Negra de Revistas parece ter tido outros sentidos. Na verdade, a Companhia chegou em fins de outubro já dividida—possivelmente por divergências pessoais entre seus membros — em duas: a Companhia Negra de Revistas e a Ba-Ta-Clan Preta,14 tendo ambas visitado São Paulo entre outubro e novembro de 1926. A Companhia Negra de Revistas não recebeu maior destaque da grande imprensa, ainda que Tudo Preto tenha sido elogiada: “quer pela concorrência que tiveram as duas sessões, quer pelos aplausos com que foram recebidos vários números da peça, resultou em mais um animador sucesso”.Na verdade, esta era uma Companhia Negra de Revistas bastante desfalcada, pois a maior parte dos nomes de peso da companhia ficou com a Ba-Ta-Clan Preta, inclusive Pixinguinha e De Chocolat. O grande sucesso estampado nos cartazes da Companhia era o ainda jovem Grande Otelo. A companhia se apresentou no Teatro Apolo, no TeatroMafalda (no Brás) e no Cassino Antártica, despedindo-se de São Paulo no dia 10 de novembro. A 11 de novembro estreava no Teatro Santa Helena a Companhia Ba-Ta-Clan Preta, precedida de amplo esquema promocional. Dez dias antes, O Estado de São Paulo já anunciava a estréia, fato repetido no dia 7, com um grande anúncio da peça Na Penumbra, anunciando a presença de músicos famosos como Pixinguinha e Bonfiglio de Oliveira e “12 mulheres de ébano, 12 mulheres de azeviche”, definindo-se como uma “revista negra”. No dia 9, o crítico teatral d’O Estado de São Paulo afirmava que “têm sido bastante procuradas as entradas para o Santa Helena”. Na véspera da peça, a publicidade da Ba-Ta-Clan Preta anunciava “30 mulheres de ébano e uma jazz-band de azeviche”. No dia da estréia o crítico teatral do mesmo jornal comentava a expectativa da apresentação, e a publicidade da empresa mostrava um enorme anúncio com um desenho da estrela Deo Costa nua, envolta em lençóis negros, com a legenda “A Vênus de Jambo”. O anúncio ainda prometia uma jazz-band, dois trompetes, além de trombone, saxofone, piano e bateria. No dia seguinte, o comentário do crítico teatral d’O Estado de São Paulo dá grande destaque à peça, elogiando principalmente os músicos e atores, criticando porém a excessiva imitação parisiense e cobrando mais originalidade. Aparentemente, a Companhia seguiu o conselho, visto que já no dia seguinte o mesmo cronista elogiava as mudanças feitas na peça, que teria ficado “mais leve e interessante”, graças à intensificação dos números de “música característica e danças típicas”. Com o tempo, a Companhia deixa de ser notícia. Talvez para recuperar o sucesso, volta a Tudo Preto, depois faz uma síntese das duas peças, denominada A Revista das Revistas.16 A despedida da Companhia, no dia 22 de novembro, recebe um destaque mínimo.”

3- A REPERCUSSÃO E O RACISMO ESCANCARADO DOS BRANCOS

Quando De Chocolat, pseudônimo usado por João Cândido Ferreira, em sociedade com o português Jaime Silva (o único branco dessa empreitada) resolveram fundar a Companhia Negra de Revistas é óbvio que imaginaram a reação racista de inúmeros setores da sociedade que procuravam desqualificar o trabalho da Companhia. Segue abaixo algumas transcrições de reportagens, notas de jornal, dissertações, e citações de fontes diversas:

Numa resenha de Jeferson Bacelar, professor do Departamento de Antropologia da USP e pesquisador do CEAO:

“(…) entre 1926 e 1927, a Cia Negra de Revistas eletrizou a crítica e o público, encenando algumas peças, também apresentadas em São Paulo, Minas Gerais e outros estados pelos quais a companhia excursionou. Em todos os lugares provocou polêmicas e debates, às vezes favoráveis, e muitas vezes sob a forma de furibundos ataques racistas, não raro com cruéis pilhérias que traduziam as dificuldades e a situação do negro nos palcos brasileiros.

Faltando 11 dias para a estréia de Tudo preto, chegava ao Rio de Janeiro, nada mais nada menos, que o Ba-Ta-Clan, vindo de Paris, via Lisboa, onde se exibira gloriosamente no Trindade. Vieram as inevitáveis comparações, às vezes acompanhadas de comentários desairosos e racistas sobre os brasileiros. Para completar, na mesma data da estréia da Companhia Negra, também estavam no Rio de Janeiro a Companhia Portuguesa de Revistas e a Companhia Argentina de Revistas. Porém, seja pela curiosidade ou pela originalidade, a estréia de Tudo preto em duas sessões provocou “duas enchentes”, tendo o público premiado com aplauso as interpretações. Muitos foram os elogios dedicados pela imprensa: de “lindíssimos, artísticos e deslumbrantes cenários” a “o mais original espetáculo até hoje visto no Brasil”. Mas não faltaram as críticas, como a charge do Careta, em que dois artistas brancos ouvem do boneco Juca Pato: “Pois os senhores não queriam teatro genuinamente brasileiro?”. E, no alto, à guisa de título: “As coisas estão pretas”.

Os intelectuais também foram ver Tudo preto. O primeiro número da Revista do Brasil trouxe uma apreciação entusiasmada de Prudente de Moraes Neto: “extraordinário sucesso artístico e de bilheteria da peça. Os negros dessa companhia fazem não arte negra, mas arte brasileira da melhor. Arte mestiça. E, por isso, são admiráveis”. Tarsila do Amaral que foi ver a peça censurou o nome De Chocolat, que considerava pedante, assim como puro pedantismo seu desempenho no palco. Mário Filho, que tanto gostara de Tudo preto, a ponto de convidar os leitores para assisti-la, no final não pôde aplaudir a Companhia, porque, segundo ele, a própria não se dava ao respeito: “Ah! Meu bom amigo […] eles ainda não compreenderam o valor da sua raça […]. E procuram ridicularizá-la […] para agradar aos brancos […] senhores da orbe”. A grande repercussão da peça nos primeiros dias não demorou, e cedo o jornal A Rua começou um virulento ataque: “Bem depressa, porém, se verificou que os pretos do De Chocolat eram a maior blague deste mundo. Em Paris exibiram-se pretos artistas; aqui se exibiam os nossos copeiros e cozinheiras […] havia uma pequena diferença […]. O declínio, o desastre” (14/9/1926). 

Segundo o Jornal do Commercio, a sala do Rialto estava absolutamente cheia, fazendo parte da assistência parentes de todos os artistas, em sua maioria, pretos. Já Lincoln de Souza diz que na estréia, com o Rialto literalmente cheio, não havia nem uma dúzia de pretos.

A imprensa negra, por meio do Clarim da Alvorada, embora três semanas após a estréia, ressaltou que também no “teatro ligeiro” se concretizava “a crescente evolução do homem de cor”. Em seguida, fala dos precursores, como Ascendina dos Santos, Eduardo das Neves e Patápio Silva, cuja obra de reconhecimento prosseguia com De Chocolat, Sebastião Cirino, os artistas da Companhia e outros inúmeros cantores e músicos consagrados.”

Grifos feitos por mim.

Jornal do Brasil, 28 de Julho de 1926. p. 5. “O Elenco da Companhia Negra”:

“O ELENCO DA COMPANHIA NEGRA – É o seguinte o elenco da Companhia Negra de Revistas, a estrear a 31 do corrente no Rialto, com a revista “Tudo Preto”, original de De Chocolat, com música do maestro Sebastião Cyrino: Jandyra Aymoré, Rosa Negra, Dalva Espíndola, Djanira Flora, Miss Mona, De Chocolat, Guilhermo Flores, Belizario Vianna, Vicente Fróes, Waldemar Palmieri, Soledad Moreira, Domingos de Souza e 20 “black girls”. Tudo Preto”, que subirá a scena luxuosamente vestida, dentro de deslumbrantes scenarios de Jayme Silva, além desse elenco terá o concurso do “Trip Martins”, formado pelos meninos Alfredo, Roberto e Martha Martins, músicos de grande valor. O maestro regente da orchestra será o célebre Pixinguinha.”

Numa dissertação de Nirlene Nepomuceno:

“À medida que se aproximou a data de estreia da Companhia, em 31 de julho, no Teatro Rialto, situado na esquina das avenidas Almirante Barroso e Rio Branco, coração da modernidade carioca, as notas e pequenos registros dando conta do andamento dos ensaios, da contratação do elenco ou da confecção dos cenários intensificaram-se, tornando-se praticamente diárias a partir do inicio do mês de julho. Percebe-se, nas seções dedicadas ao teatro, um clima de disputa para ver quem saía na frente com informações novas sobre a estréia e a Companhia. A coluna “Palcos e Salões”, do Jornal do Brasil, comandada por aquele mesmo Mário Nunes que costumava fustigar De Chocolat e seus artistas na revista O Malho, descreveu, em tom maravilhado, um ensaio do grupo. No texto fica latente o espanto do cronista com a capacidade demonstrada pelo elenco e o seu total desconhecimento de uma cultura de tradições orais que se expressa entre gestos e ritmos.” e cita: “É digna de admiração a extraordinária habilidade das pretas componentes do corpo de baile da Companhia Negra de Revistas, a inaugurar seus espetáculos por todo o corrente mês num dos teatros da Avenida. Os passos mais difíceis são executados pelas bailarinas com extraordinária precisão em poucos ensaios, a ponto do respectivo ensaiador, o prof. Gervásio Michels, considerá-las assombrosas. Alem do corpo regular de baile, a Empresa possui uma pequenina bailarina de 6 anos apenas que é um verdadeiro prodígio.”

No Jornal do Brasil, 31 de julho de 1926. P.5. :

“Ameaça para as donas de casa!”

“Anuncia-se para estes dias a estreia de uma companhia de revistas, cujo elenco é formado unicamente por “artistas negros”, e até mesmo a peça de estreia é escura, chama-se: “Tudo preto”…

A originalidade e novidade entre nós do elenco da tal companhia está despertando grande interesse no público, mas temos certeza de que se já meditou a respeito, uma certa classe, deve estar bastante apreensiva com esta ideia e companhia “escura” de revistas… e esta classe é a das donas de casa, das patroas que têm que lidar com a criadagem e resolver constantemente o sério problema de arranjar criadas que pousem um pouco em suas casas. O aumento constante do número de sociedades-dançantes e ainda das reuniões semanais, hoje às quintas, sábados e domingos, constitui agora um tormento para as donas de casa.

Agora, a tal “Companhia Negra de Revistas” é muito capaz de vir complicar ainda mais o problema da criadagem. Cozinheiras e arrumadeiras há hoje que são extintas na área coreográphica. Essas, talvez sintam-se tentadas agora a exhibirem a  sua arte no palco, outras como simples comparsas, abandonando seus empregos atuais ou sacrificando-os como melhor puderem…

Assim, pode desde já a Companhia Negra estar certa de que ninguém mais do que as patroas “torcem” para o seu insucesso e vida curta.”

(A foto da nota do Jornal do Brasil está na galeria de fotos)

Dissertação de Nirlene Nepomuceno:

“A insistência de parte da imprensa em apontar o serviço doméstico como o único lugar que os negros deveriam ocupar, revela o temor que provocava uma presença cada vez mais frequënte – e bem sucedida em termos de recepção do público -, de artistas negros no mundo do divertimento da Capital Federal. Estava recente na memória da cidade o sucesso alcançado no início daquele ano de 1926 por uma das integrantes da Companhia Carioca de Burletas, em atuação no Teatro Carlos Gomes. Ex-cozinheira, negra, Ascendina dos Santos, cujo nome sequer constava nos cartazes da peça, “eclipsou totalmente o brilho de todas as nossas estrelas”, como reconheceu O Globo, tornando-se a principal atração do espetáculo. Se o sucesso individual de Ascendina, embora de grande repercussão, limitou-se ao público interno, o da Companhia Negra de Revistas parece ter atravessado as fronteiras do país. Coincidentemente, as críticas negativas ao grupo começaram a tornar-se mais frequëntes e densas exatamente ao mesmo tempo em que surgiram os primeiros rumores de que um empresário argentino pretendia promover um intercâmbio entre o Brasil, Argentina e Uruguai, levando grupos teatrais daqui para lá e vice-versa. Neste mesmo período, começaram a evidenciarem-se sinais de desentendimento entre De Chocolat, seu sócio Jayme Silva e outros integrantes da troupe.” 

A proposta de intercâmbio internacional da Cia Negra de Revistas foi um dos fatores determinantes para o fim da Companhia Negra de Revistas, uma vez que até a SBAT (Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais) se manifestou contra a empreitada por ser uma “vergonha nacional”. Os detalhes dessa história estão mais à frente no post.

Outro testemunho da imprensa racista, ainda por Nirlene Nepomuceno:

“O advento da Companhia Negra de Revistas recebeu, desta parte da imprensa, tratamento diferenciado, variando negativa ou positivamente de acordo com o tipo de publicação e a fase vivida pelo grupo. Em determinados momentos, o nascimento e formação da troupe foram comemorados e o mérito da companhia reconhecido; em outros, porém, a companhia foi execrada, juntamente com seu fundador. Desde as primeiras informações a respeito da formação do grupo, contudo, transpareceu nas notícias dos jornais um violento racismo, representativo da situação que a população negra enfrentava no pós-abolição. Os registros iniciais na imprensa sobre a organização da companhia teatral formada unicamente por pretos e mulatos datam do início do ano de 1926 e mesclam ceticismo, perplexidade, entusiasmo e preconceito. O Malho optou por noticiar a formação do grupo, em fevereiro daquele ano, na forma de um fictício (e de mau gosto) classificado de procura-se.

Precisa-se de negros e negras, para a organização de uma companhia teatral destinada a enfeitiçar o Rialto. Devem ser absolutamente retintos e não muito horrendos, idade entre 16 e 40 anos, sabendo ler, escrever e dançar. Procurar o Sr. Mário Nunes, no Jornal do Brasil.

O referido classificado, publicado na coluna Theatros, vinha precedido de um informe em que a revista explicava que, devido ao marasmo porque passava o teatro após o carnaval, resolvera substituir a chronica theatral por anúncios que interessavam à classe teatral”. 

A autora cita ainda que O Malho, em outras ocasiões, lançou mão de entrevistas fictícias para ridicularizar a Companhia Negra de Revistas, De Chocolat e outros artistas negros, caso da atriz Ascendina dos Santos.

Uma das entrevistas fictícias racistas publicada em “O Malho” (13-02-1926):

“Theatro Nacional

O Malho, sempre attento aos assumptos referentes ao theatro, solicitou por intermedio do Sr. Gastão Tojeiro, diretor da C. C. B., uma entrevista da Exma. Sra. D. Ascendina Santos, salvadora d’aquella heterogenea troupe e, quiçá, do theatro nacional.

Um telephonema gentil nos avisou: Mme. Ascendina vos espera, quarta-feira, no meio dia, no seu bungalow no morro do Pinto.

No dia e hora aprazados, lá estavamos. O bungalow só era no nome; a famosa artista explicou que aquella era a sua residencia temporaria, porquanto oscilla entre a Tijuca e Copacabana, um Ford e um Chevrolet, tudo posto á sua disposição por ardorosos paladinos do nosso theatro, alguns de nacionalidade lusa.

Deppois de a aconselharmos a acceitar os bungallows da Tijuca e de Copacabana, o Ford e o Chevrolet, iniciámos nossa palestra. Desejavamos saber como se fizera artista.

– Ué, gente, que bobage. Eu não me fiz, não sinhô, me fizéro. Aonde é que o sinhô já viu arguem fazê? Quem é bom já nasce feito…

– Mas sentia algum impulso pelo palco?

– Lá isso senti… Era hora de entrá e eu tava fazendo chiquê… “Seu” Tojêro, então, chegou perto de mim, me deu um impurço e eu entrei pelo parco…

– Muito bem! E qual foi a sua primeira impressão?

– Minha primeira impressão foi que eu tava acompanhando D. Julia á feira de sabbado na Praça da Bandêra. Aquelle mesmo povaréo e aquelles mesmos lusitanos, dando em cima da gente…

– E sempre que entra em scena não é victima do trac?

– Victima de que, moço? Ou eu entendi má, ou o sinhô disse uma besteira…

Explicámos o que era o trac; ficou admirada, pensára em cousa muito diversa e affirmou que não era creatura de tracs.

– Tou em scena como tou aqui; sei para quanto presto e tenho confiança em mim… O que eu gosto mais é da hora de dansá! A negrada fica maluca! Os branco pensava que nois não era capaz de fazê sucesso no parco, apezá de terem inzempro da Aracy e da Otia que, afiná de contas, são meio lá meio cá. Agora se convencêro. “Seu” Pinto do Ideá e do Recreio, já me tem mandado pra masi de cem recado… E eu nem causo! Sou fié e agárdecida ao “seu” Tojêro. Só sáio do Carro Gome pra formá companhia propria, de que serei a “estrela”! Já cunvidei inté o Doutô Jacarandá para “estrello”.

– Com que então, grandes projectos?

– Mas de certo. Quero prová que os preto, no Brasil, são mesmo, ali, de facto! E vamo deixá dessa historia de dizê que são só os portuguez que gosta da gente” Meu camarim, no triatro, véve cheio! É portuguez, é intaliano, é hispanhó e muito brasilèro.. D’ahi o estrillo do João Luso…

– O portuguez leva a fama… D’ahi o estrillo do João Luso…

– Pois é. Não é só o “seu” João Luso, são um magote delles, e muitos dos jorná; quem é que não sabe que os jornalista são a gente mais sem vergonha do mundo?

– Obrigados!

– E não lhes faço favô nenhum. Bom. Tá na hora de tomá a minha ducha… É servido?

– Não, agradecido. Mas creio que ainda é cedo…

– Ao contrario, tou atrazada. Minha manicura chega d’aqui a quinze minuto, o cabererêro d’aqui a meia hora e a modista num deve tardá…

– Gratos á sua acolhida…

– De nada. Quando saí o artigo faz favô de levá lá no meu camarim. Ah! espere um pôco.

Esperamos. Voltou com um retrato onde se lia:

“A inlustrada redação do Maio, a umirde admiradora Açendina Santos” .

Beijamos-lhe a mão e partimos.”

Observações:

– Foi mantida a grafia original. Revoltante.
– Na revista “O Malho”, a coluna “Theatros” está sem assinatura. Segundo Nirlene Nepomuceno, autora da dissertação usada como fonte de pesquisas para o post, a responsabilidade da coluna era de Mário Nunes.  Entretanto, outros textos de cunho absolutamente racista d’O Malho tinham a assinatura “-A”. Seria Álvaro Moreyra?

Nirlene Nepomuceno sobre uma nota do Jornal do Brasil de 10.07.1926

“Nesse mesmo jornal, na edição do dia 10 de julho, uma nota comparava as atrizes Rosa Negra, Dalva Espíndola e Jandira Aymore, artistas da Companhia, à estrela negra norte-americana Florence Mills(*), avaliando que as três brasileiras tinham total capacidade para “ofuscar o brilho” da afro-americana. O reconhecimento do talento e das habilidades dos integrantes da troupe, porém, convivia lado a lado com o tratamento pejorativo que os jornais costumavam dispensar à população negra: “Jayme Silva e De Chocolat contrataram para o elenco da Companhia Negra (…) a atriz inglesa Miss Monsque, que é preta como o carvão.”(**)

(*) A dançarina e cantora Florence Mills, chamada de “o pequeno pássaro negro”, foi apontada como a melhor cantora negra da primeira metade do século XX nos Estados Unidos e uma das principais figuras do Harlem Renaissence.

(**) A Noite de 10-07-26. “Da Platéia” No afã de “furar” o concorrente, os jornais valiam-se, muitas vezes, de informações desencontradas, como neste caso. O jornal errou na grafia do nome da atriz Miss Mons e na sua origem. Ela não era inglesa, mas natural da Martinica.”

Jornal do Brasil, 13 de Julho de 1926, p.14. “Rosa Negra”

“ROSA NEGRA” – Quem haverá que não conheça a “Rosa Negra”? É uma negrinha viva, elegante, faceira que inúmeras vezes se tem apresentado ao nosso público, ora cantando em cabarets, ora representando em theatros. Na cançoneta ella é inimitavel. Em “Tudo Preto” que, como já temos dito, será a peça de apresentação da Companhia Negra de Revistas a público da Avenida, ella, essa encantadora pretinha, cantará “A Jaboticaba afrancesada”, escripta pelos autores especialmente para ella, que, por certo lhe proporcionará fartos applausos, por isso que canta impecavelmente. Em alguns “coupleta”, que sublinha com pronunciada intenção, ela faz lembrar Florence Mills, a deliciosa actriz negra que tanto sucesso está fazendo em paris.”

A Noite 14 de Julho de 1926. P.5. “Companhia Negra de Revista”

“Companhia Negra de Revistas

Dentre as novidades de “Tudo Preto” – revista de estreia da Companhia Negra de Revistas, destaca-se um authentico “batuque africano”, executado por Miss Mons – uma cantora e bailarina excentrica, negra, franceza de Martinica, de grande fama no genero. Accrescente-se a isso o luxo do guarda-roupa e o esplendor dos scenarios, que são, na sua totalidade, de Jayme Silva, e parece garantido o sucesso da “troupe” de pretos a apresentar-se ao publico da Avenida por todo o corrente mez.”

Ainda Nirlene Nepomuceno, agora sobre o racismo da imprensa direcionado a uma outra companhia teatral:

“Ao registrar a chegada ao Rio de Janeiro de uma companhia teatral popular de São Paulo, contratada pela empresa Paschoal Segreto para atuar no Teatro Carlos Gomes, em julho de 1926, O Malho, exteriorizando preconceitos, glosou artistas cujo biótipo fugiam à representação que o cronista tinha de profissionais envolvidos com a arte de representar, aproximando-os de atrações circenses.

Em certo dia da semana passada, um trem da Central, ou um navio do Lloyd, não se sabe bem, despejou, no Rio, um troço numeroso de caipiras, que logo ao desembarcar chamou a atenção de todo o mundo. (…) Deparando-se com o bando (…) e arreliado já por haverem trazido tanta costureira, tanto alfaiate, tanto pessoal do movimento(…) o René (…) mandou encostar o caminhão de reclames da empresa (…) e ordenou, já sem cerimônias: -Entra, negrada! (…) O chofer do caminhão-reclame passeou a macacada pela cidade, exibindo-a ao povo que lia em letras garrafais de cada lado do auto: Companhia Arruda – alguns dos curiosos especimens da coleção.

4- INEVITÁVEL? O FIM DA COMPANHIA NEGRA DE REVISTAS:

“Como a Companhia Negra de Revistas durou apenas um ano, poderíamos pensar que sua existência foi curta. Porém, naquele momento, as iniciativas teatrais raramente duravam mais que isso, dissolvendo-se as trupes com freqüência, obrigando os artistas a migrar para outra formação que, por sua vez, não demorava a findar-se. É bom lembrar que a famosa cia francesa Ba-Ta-Clan teve vida ainda mais breve. Pode-se dizer que as companhias cumpriram os ciclos que lhes couberam, esgotando a novidade e saturando o público. E isso se deveu à inserção constante de artistas negros em várias companhias, à presença de dançarinos norte-americanos, acompanhando as jazz-bands, além da proliferação dos efêmeros grupos de “teatro negro”. Outra explicação, sempre recorrente quando se trata de grupos culturais ou artísticos negros, foi a sua dissolução por falta de dinheiro. Portanto, poderia ser considerado um “processo natural” o fim da Companhia Negra de Revistas, não fosse um episódio bastante significativo, de natureza ideológica, que consistiu no “golpe de misericórdia” sobre o grupo teatral negro.

Durante a existência da Companhia, houve algumas vezes menção a uma excursão ao exterior, ao Rio, ao Recife, à Bahia e, por fim, ao Rio Grande do Sul. Quando a trupe estava na Bahia em abril de 1927, um dos jornais locais, Diário da Bahia, noticiou que uma empresa argentina convidara a Companhia para uma excursão à Argentina, ao Uruguai, podendo ainda se estender à Europa. Como os jornais do Rio não deram atenção ou não tomaram conhecimento, o assunto não teve repercussão. Mas, em junho, já no Rio Grande do Sul, o assunto voltou à baila e com grande estardalhaço. Uma revista do Rio de Janeiro especializada em teatro, entre outras considerações, argüia: “Não é o caso dos poderes públicos, principalmente do Ministério das Relações Exteriores, evitar essa propaganda do nosso país e, logo onde, na República vizinha e amiga?”. A notícia repercutiu na SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), que, com grande relação com os circuitos do poder, reuniu seu Conselho Deliberativo e deliberou contra a excursão, pois, como a mesma “redundará em descrédito do nosso país, a SBAT, como lhe cumpre, irá agir energicamente a fim de impedir a consumação desse atentado aos foros de nossa civilização”. Foram além, declarando que iriam constituir uma comissão para convencer a Companhia a desistir de seu intento e, caso insistisse, teria a SBAT “de agir por meios mais eficazes”. A Companhia não apenas desistiu da excursão, ali foi passado também seu atestado de óbito. O episódio, analisado detidamente pelo autor, revela inúmeros elementos, por meio do mercado artístico, que vão do preconceito racial, da imagem nacional, das relações Brasil-Argentina até a distensão na rivalidade histórica entre os países.” – Jeferson Bacelar na Resenha sobre Livro do Historiador Orlando de Barros “Corações de Chocolat: A História da Cia Negra de Revistas”

Outro fator que pode ter contribuído para o fim da companhia, um pouco mais oculto, de cunho indiretamente racista com aparência de boas intenções do poder público, foi o Código de Menores de 1927, usado para proibir Grande Othelo de atuar no teatro. O pequeno Grande Othelo, depois da saída de De Chocolat e Pixinguinha, era a principal atração da Cia Negra de Revistas:

Fonte: Agência Senado

“Em 1927, o ator Grande Otelo ganhou as páginas policiais da imprensa carioca. Ele era um prodígio de 11 anos que brilhava no elenco da Companhia Negra de Revistas, que percorria o Brasil apresentando peças teatrais.

Na época, seu nome artístico era Pequeno Otelo. O Globo informou que ele “é tenor, é preto, muito preto, da cor do smoking que vestia, é prodigioso quando recita e canta, como é engraçadíssimo quando palestra”. O Jornal do Brasil resumiu o espetáculo: “O clou [clímax] foi a apresentação do Pequeno Otelo, um crioulinho vivo e inteligente, que canta e declama com expressão e desenvoltura”. O Jornal descreveu o Pequeno Otelo como “um pretinho interessantíssimo que pisa o palco como um artista já feito”.

Tamanho sucesso chamou a atenção do juiz de menores do Distrito Federal, Mello Mattos. O tribunal havia sido criado em 1924, o primeiro do tipo na América Latina. Mello Mattos, implacável na proteção dos pequenos, encontrou problemas sérios na Companhia Negra de Revistas.

O Código de Menores de 1927 — que teve Mello Mattos como artífice — previa que os menores de 18 anos não poderiam atuar nos palcos como atores nem como figurantes. Além disso, segundo o Jornal do Brasil, o Pequeno Otelo “vinha trabalhando excessivamente em proveito de pessoas pouco escrupulosas, que exploravam o valor do pequeno artista”.

Por ação de Mello Mattos, a carreira do Pequeno Otelo foi suspensa. Após o incidente no Rio, os pais adotivos do menino decidiram retirá-lo do grupo e levá-lo de volta para São Paulo. Ele voltaria aos palcos só na década seguinte, já como Grande Otelo.”

 

Fontes e referências bibliográficas:

– A história da Companhia Negra de Revistas (1926-1927)
Resenha de Jeferson Bacelar – Professor do Departamento de Antropologia da USP e pesquisador do CEAO
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012007000100012

– “Preconceito racial no Teatro de Revista” – Portal Luis Nassif
http://blogln.ning.com/profiles/blogs/preconceito-racial-no-teatro?id=2189391%3ABlogPost%3A180227&page=2#comments

– Site do Grupo de Estudo e Pesquisa Cultura Negra no Atlântico (CULTNA) – Departamento de História da Universidade Federal Fluminense – UFF
https://cultna.wordpress.com/category/encontro-mensal-cultna/page/2/

Recortes de jornais encontrados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

– Artigo “Negros Contando (e Fazendo) sua História: Alguns Significados da Trajetória da Companhia Negra de Revistas (1926) de Tiago de Melo Gomes.
http://www.scielo.br/pdf/eaa/v23n1/a03v23n1.pdf

  Dissertação “Testemunhos de poéticas negras: De Chocolat e a Companhia Negra de Revistas no Rio de Janeiro (1926-1927)” – Nirlene Nepomuceno – PUC/SP

– Revista “O Malho” – 1926

http://www.marcelobonavides.com/2019/01/sebastiao-cirino.html
Arquivo Marcelo Bonavides – “Estrelas que nunca se Apagam”.

– Grande Otelo sobre a Companhia Negra de Revistas no programa Roda Viva em 15 de junho de 1987. Entrevista completa transcrita:  http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/203/entrevistados/grande_otelo_1987.htm

– “Código de Menores de 1927 foi usado para proibir Grande Otelo de atuar no teatro”. Fonte: Agência Senado
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/07/07/codigo-de-menores-de-1927-foi-usado-para-proibir-grande-otelo-de-atuar-no-teatro

Orlando de Barros – “Corações de Chocolat – A história da Companhia Negra de Revistas (1926-27)”, Rio de Janeiro, Livre Expressão, 2005

https://www.academia.edu/26966434/A_PRESEN%C3%87A_NEGRA_NO_TEATRO_DE_REVISTA_DOS_ANOS_1920

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo517117/companhia-negra-de-revistas

https://primeiroteatro.blogspot.com/2015/09/historia-do-teatro-negro.html

 

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